Especialista em Comunicação e Política explica impacto das bolhas,
uso de dados e novas regras do TSE para IA
O celular se tornou a principal porta de entrada da política no dia a dia. Se antes o eleitor conhecia propostas pelo jornal, rádio e TV, hoje o contato é direto: candidatos postam vídeos, fazem lives e respondem comentários sem intermediação da imprensa tradicional. O formato impulsionou vídeos curtos, memes e influenciadores digitais, que muitas vezes superam a audiência de veículos tradicionais.
Para a jornalista, pesquisadora e professora de Comunicação e Política da Estácio, Monica Winter, esse contato direto tem um lado positivo, mas também traz novos desafios. Um deles é a Pós-verdade, o termo foi eleito como a palavra do ano pelo Dicionário Oxford em 2016, ano do Brexit e da eleição de Donald Trump. O termo descreve quando conteúdos que mexem com a emoção pesam mais na formação de opinião do que os fatos.“As redes foram feitas para prender a atenção. Quanto mais curtidas, comentários e compartilhamentos, mais o post é exibido para outras pessoas. Conteúdo emocional ou polêmico, verdadeiro ou não, se espalha mais rápido do que uma notícia checada. E os algoritmos ainda criam o efeito bolha, mostrando para cada pessoa aquilo em que ela já acredita, o que reforça a polarização”, explica Monica.
A partir das eleições de 2018, cresceram no país agências de checagem como Aos Fatos, Agência Lupa, Comprova e Fato ou Fake, e o Tribunal Superior Eleitoral passou a firmar parcerias com essas agências e com as plataformas. Em 27 de fevereiro de 2024, o TSE aprovou regras que proíbem o uso de deepfakes, vídeos ou áudios falsos criados por IA. Para as eleições gerais de outubro, as regras ficaram mais rígidas com nova resolução aprovada em março de 2026, que amplia a proibição e cria restrições para conteúdos gerados por IA nos dias que antecedem a votação. No entanto, mesmo com a checagem, a velocidade das redes impõe limites.
"A desinformação se espalha mais rápido do que qualquer equipe consegue verificar e reverter a convicção criada a partir de uma fake news ou pós-verdade é um grande desafio.”, ressalta a professora.
No Congresso, a tentativa de regular o tema com o PL das Fake News, aprovado no Senado, foi retirada de pauta na Câmara em maio de 2024 e segue sem data para voltar a ser discutido.
A desconfiança do brasileiro em relação às redes sociais como fonte de informação também cresceu. Segundo a Pesquisa Genial/Quaest de agosto de 2026 sobre percepção dos meios de comunicação, 54% dos entrevistados disseram não confiar nas redes sociais, enquanto 44% afirmam confiar. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
“As redes e suas bolhas ajudam a manter engajado quem já apoia um candidato, mas são bem menos eficazes para convencer quem está indeciso. Elas mudam a forma como a política é vivida no dia a dia, mas não substituem o julgamento de cada eleitor”, conclui Monica. A orientação é checar a fonte original antes de compartilhar, desconfiar de conteúdos que provocam reação emocional forte e diversificar os canais de informação.
Segundo a especialista, outro ponto de atenção é o uso indevido de dados pessoais para fins eleitorais. O caso mais conhecido é o do Facebook com a Cambridge Analytica, revelado em março de 2018 pelo The Guardian e The New York Times. A consultoria teve acesso a dados de cerca de 87 milhões de usuários para direcionamento de propaganda política, inclusive na campanha de Donald Trump em 2016. No Brasil, o Facebook foi multado em R$ 6,6 milhões pelo Ministério Público em dezembro de 2019 pelo mesmo caso, episódio que ajudou a impulsionar a criação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).



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